Arte Processual

O enigma da autoria em “Electric Sheep”

Electric Sheep é uma obra de arte abstracta e colaborativa, conduzida por milhares de pessoas e computadores em todo o mundo, quando os computadores [hardware] dormem a Electric Sheep vem e coloca-os em comunicação para a partilha do trabalho de criação de animações abstractas em mutação – sheep. Qualquer pessoa a olhar para um destes computadores pode votar nas suas favoritas (…). As sheep mais populares vivem durante mais tempo e reproduzem-se segundo um algoritmo genético de mutação e junção. O rebanho evolui no sentido de agradar à audiência global. Cada um pode também criar a sua própria sheep e submetê-la.”

“Todos os media digitais envolvem a tradução de todos os dados/informação em dígitos ou “bits”, que são universalmente comparáveis e permutáveis com outros “bits”. Todos os media digitais são, portanto, equivalentes em estrutura” – e o mesmo se pode dizer de tudo o que ganha nele qualquer tipo de existência,pela sua conversão informacional como condição de acesso a esta dimensão (Smith 2007:163). O ciberespaço parecia mais do que nunca permitir, então, o fim do monologismo artístico, inerente à autonomização do acto criativo, ao oferecer um local como nenhum outro para a reunião de consciências capazes de constituir comunidades artísticas (em expansão) de iguais de cujo diálogo as obras (já não objectuais) emergeriam.

Quando se percebeu a Web como aquilo que o próprio nome indica que ela é, uma teia de conexões, com potencialidades muito para além da própria máquina-computador, mas também para além de um mero instrumento de divulgação, o diálogo intertextual que instabilizava cada obra pelas suas reinterpretações ou apropriações, que diziam a sua abertura (Bakhtin 1986:170) parecia ter encontrado o seu medium por excelência. Esta nova dimensão aberta sobre o real, não poderia, de facto, elevar mais a linguagem (o código/o símbolo), nela esta adquire o poder magico-performativo que o Homem desejou conceder-lhe desde que no “princípio” colocou apenas o “Verbo”. Tudo neste reino – mesmo aquilo que se traduz em imagem ou som – tem uma base linguística, uma essência informacional. Com esta estrutura, todo o virtual e o que nele existe é linguisticamente maleável e dialogicamente constituído. Em evidência, o facto da linguagem não ser “apenas um sistema abstracto, mas sim um meio de produção” se não material, ainda assim real no virtual (Bakhtine apud Kac 2004:202).

A nova linguagem não diz apenas o que há, com ela se fazem “máquinas virtuais” – software – que dizem aquilo que deverá haver, numa estranha mas elucidativa semelhança com a ideia benjaminiana de que o verdadeiro “autor” seria aquele empenhado na “produção de meios de produção” (ou na sua refuncionalização)(Benjamin 1970:6). Assim, o autor (regressado dos mortos) como produtor que se poderia dizer o autor como transdutor (que trabalhava as ligações) assume agora o papel de programador ao mesmo tempo que a própria noção de autoria da nunca final(izada) obra visual se dissemina.

Autor como programador: Máquina < Humano < Autor

Qual instância divina, a linguagem informática das regras, pelas quais os cerca de “450 000” pastores por “toda a Internet” se orientam, (re)criaria em Electric Sheep, “o fenómeno biológico de evolução e reprodução através da matemática”, descreve Scott Draves. Porém, apesar de um dos seus estandartes ser precisamente o carácter quase-orgânico de evolução da obra, esse factor “evolutivo” que integra a estrutura do processo e determina as regras pelas quais este se rege, “Electric Sheep” não apresenta um exemplo de “arte evolutiva”, pois para tal o próprio programa que processa e transforma as “sheep” deveria transformar-se diacronicamente.

A imutabilidade do programa justifica, assim, as intervenções esporádicas do programador (na sua actualização) bem como a manutenção da participação da audiência. Uma arte verdadeiramente evolutiva, aspirando à simulação do biológico, teria de ter por base uma “programação genética”, uma técnica de “aprendizagem maquínica”, no sentido em que a própria máquina, ou melhor dizendo, o software teria em si mesmo incluído o princípio da sua modificação e, então, pela selecção das melhores “sheep” (nesse caso, ainda dependendo, apesar de tudo do juízo estético da audiência pelo seu carácter subjectivo dificilmente reprodutível pela máquina), o próprio software alterar-se-ia no sentido do auto-melhoramento dos seus algoritmos de união e mutação de genótipos, conduzindo, mesmo que nunca alcançado, à descoberta da “sheep” ideal (Segaran 2007:250).

Considerando-se apenas o funcionamento do software que articula as dinâmicas de produção desta obra, não se pode vê-lo como espelho dessa pretensão. É certo que a obra emergente está em “constante transformação”, porém apenas ao considerar-se o elemento humano que nele participa se pode encarar o sistema, que o engloba tanto quanto ao software ou às imagens que este – não sozinho – produz, como “auto-organizado” e “dinâmico” (Galanter 2003:5).

Em comparação com a evo-art, o humano tem aqui maior poder, o algoritmo gere os inputs, insere aleatoriedade nesta gestão mas não se auto-modifica, é o programador que o actualiza, ditando a passagem de gerações, e é a audiência que orienta a aplicação da “fitness function” pela expressão maquiavélica do seu juízo estético que permite a absorção das sheep pelo fluxo reprodutivo das “melhores”, mesmo tendo em conta o impulso entrópico que chega pela inserção de novas e sem genealogia no sistema.

Por outro lado, podendo falar-se da completude de cada animação discreta que é inserida na corrente, a sua delimitação perde-se quando, se votadas, o seu genótipo se prolonga e transforma nos “rebentos” maquinicamente gerados, essa “sheep” particular continua a existir na obra, mas já não do mesmo modo, não se pode apontar onde ela (criação singular) começa e onde dá lugar à mutação algorítmica ou ao genótipo de uma outra com a qual este algoritmo a fez “acasalar”.

Esta instabilidade, fluidez e indeterminação é o que mantém o sistema dinâmico e a obra em movimento, impedindo o seu fechamento excepto se esse mesmo sistema falhar. A continuidade generativa depende em grande parte da “capacidade decisória” (para nós aleatória) da máquina, cujos resultados nunca poderão ser antecipados nem pela audiência eleitora, nem pelo criador de cada “sheep”, nem tão pouco pelo artista-programador, ainda assim é a este que se devem as regras pelas quais todo o conjunto se rege, incluindo a determinação da abertura maquínica. (Boden 2009:4).

Mesmo que não omnipotente, são as especificidades programáticas que definem o funcionamento do processo de criação e que se estabelecem como ponto de referência para a definição do tipo de obra criada, não o resultado e muito menos a sua configuração estilística. Assim, na disputa entre a criatividade do homem e a autonomia da máquina o autor é aquele que está dos dois lados, pois é ele que fazendo uso da primeira, cria, define e redefine o modo de funcionamento da segunda, integra o elemento humano que se destaca na orientação do funcionamento do software e cuja superior importância, na ingénua defesa da real criação artística, se procura defender, mas é também ele que, não como o artista moderno e pré-moderno que se encontrava do outro lado do medium pelo qual o espectador a ele chegava, se encontra do outro lado do receptor, integrado no próprio programa com o qual este interage.

Dependendo a emergência contínua e diferenciada da obra, que não é as animações discretas mas sim o seu fluxo, transformação e miscigenação, a quem se poderá atribuir, a autoria da obra que se torna tanto mais indistinta mesmo nas suas discretizações quantas mais gerações se deixam nascer? Será que se pode ainda remetê-la para o criador do programa? Os participantes mais activos (criadores de animações sobreviventes) continuam recuperáveis no arquivo do site que, como uma legenda hipertextual, guarda registo das “sheep”, das suas “árvores genealógicas” e também dos seus criadores. Porém, mesmo que estes e os anónimos eleitores façam a obra, falando de “Electric Sheep” o que se destaca é precisamente o programa informático que se remete para o seu criador, Scott Draves. Assim, apesar das ameaças de morte ao autor, “Electric Sheep” afigura-se como uma forma de arte generativa, interactiva onde, ao contrário do que Boden afirma, um nome de referência se mantém, assegurando a sua segurança.

sheep-7

Registo de dados “genéticos” da 7.ª ovelha da 245.ª geração.

Teremos de concordar que a autoria se dissemina, se torna ambígua (Boden 2009:13) mas, pragmaticamente, na urgência da atribuição, não podendo delimitar-se a obra mas reconhecendo-se aquilo que dela é parte como o sendo, o enfoque desloca-se para o processo, um novo afunilamento pela diversidade dos participantes e é o programa que resta, o programa e o programador, este encontra-se ainda no topo da hierarquia, mesmo que a delegação das decisões criativas venha quebrar o monopólio autoral.

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