O Ciborgue sonha com Ovelhas Eléctricas

Nos anos 60, antecipava-se no mundo da crítica literária, um período de luto: Barthes anunciara a “morte do autor”. A escrita deixaria e ser vista como o lugar privilegiado para a afirmação desta individualidade suprema e omnipotente para se tornar no “compósito onde vem perder-se toda a identidade” (1967:2), fabricado pela sua relação já estabelecida ou ainda por estabelecer com outros textos, mas também como um corpo dinâmico, cujos contornos, agora indeterminadamente abertos, seriam traçados a cada leitura, acto pelo qual o leitor se apropriaria do texto e construiria o seu sentido. Este assassinato, no qual muitos tomaram parte, faz nascer o leitor que se ergue e reclama a sua participação na produção do texto lido. No reino do textual, ambos se devem tratar como iguais, sendo que nenhum tem existência fora da linguagem. O reconhecimento dessa perda transcende o campo literário e estende-se aos restantes domínios artísticos, onde, além da abertura retrospectiva, os esforços empreendidos para fazer quedar as fronteiras da especificidade e da unicidade que se procuravam erguer como delimitações impermeáveis de categorias disciplinares nas quais cada objecto artístico deveria encontrar o seu lugar conduziam a uma Arte que não poderia ser mais uma arte de produção objectos artísticos capazes de definir aquilo que a “Arte é..”.

O que a “Arte é…” seria experiência artística, evencialidade, a experiência, mais que sensorial, sensível que integraria a vivência do receptor aquando do seu contacto com a obra, ou, melhor dizendo, seria aquando do seu encontro com este terceiro que a Arte verdadeiramente existiria, que a obra se concretizaria, no encontro entre duas intenções, duas sensibilidades, dois gestos que, ainda assim, poderia não dizer toda a obra a cada momento de confluência, efectivando-se, ao invés, somente um de inúmeros possíveis modos de existência da mesma. Finda a ditadura autoral, termina também o estatuto da “obra de arte como um objecto produzido por um autor que organiza uma sucessão de efeitos comunicativos de modo que cada possivel fruidor possa recompreender”(Eco 1991:40), termina o entendimento da sua fruição como a pura experiência contemplativa do belo e consequente ajuização do objecto pela descoberta nele de uma sensibilidade outra, uma intencionalidade mística que partiria dessa entidade autoral. A abertura da obra à permanente incompletude enquanto orientação conceptual da prática artística vem reificar o receptor, parecendo elevá-lo ao estatuto de co-criador da obra, tão múltipla quanto o maior número de possíveis receptores.

Na verdade, nada mudou (além de um maior interesse em criar obras capazes de explorar este conceito), não só pela possível identificação do desejo, que vem então ser dito, em práticas anteriores – em alguns artistas, como Mallarmé, de forma recorrente -, mas também porque, em retrospectiva, o acto criativo nunca havia dependido apenas do artista, antes do tornar literal desta abertura, a obra era já aberta, colectivamente criada pela sua diferente realização na mente de cada espectador que, na sua individualidade, sempre a apreciaria, interpretaria e portanto colocaria em contacto com o mundo de uma forma particular que viria então somar-se à obra realizada, mantendo-se parte desta ainda em potência.

Porém, fora dos impulsos revolucionários da nova arte, a sua participação enquanto um operador na realização de uma obra programada não poderia nunca colocá-lo como um igual face àquele que a programou, mesmo que sem o primeiro a obra não possa existir, é ainda para o segundo que cada obra é remetida. Mesmo que a noção de génio criador esteja bem enterrada, nada impede a reincarnação do autor na figura do programador que, apesar do fervor muitas vezes paradoxal com que se quis extingui-lo, coexiste com a possibilidade de comunicação interdisciplinar, a constituição inter-medial ou até inter-artística do processo artístico para o qual o foco de interesse, da obra final, tende então a deslocar-se. Por mais que reconheçamos uma certa verdade nesta extensão do acto criativo ao acto de recepção da obra criada, há que entender a poesia metafórica que esta reificação do receptor nos traz.

Os novos media – deixando de pensá-los como auxiliares da criação ou ferramentas de divulgação, no caso da web –, tornando acessível uma nova dimensão que se edifica no espaço da própria ligação, da junção entre a conectividade e a interactividade, pareciam vir realizar os desejos ainda irrealizados de abertura da arte a uma verdadeira era dialógica. As promessas, contudo, parecem quebradas, o que não dita a irrelevância das novas formas de arte e de fazer arte que aqui emergem. Mesmo que não realizando o novo modelo proposto, não reerguem necessariamente as estruturas que com a nova visão e orientação da arte se procuravam derrubar. Mas que novos códigos vem então a arte de código instituir? O que de novo surge da configuração programática e algorítmica do processo artístico, da sua generatividade autónoma? O que nasce da união artística não protésica ou intrumental entre homem e máquina?

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