Do problema da técnica à solução tecnológica

Apenas a um olhar ingénuo ou pre-conceptualmente recortado a prática artística neste novo (ciber)espaço não parece novidade. Eco, é certo, falava dos impulsos de abertura remontado ao barroco (1991:44), enquanto que Galanter refere que se encontravam já exemplos de produção imagética processual (autonomizada do total controlo humano pela utilização do instrumento) na pré-história (2012:1). O desenvolvimento do digital e a deslocação para esse campo do interesse cultural e artístico veio com a promessa de realização facilitada desses desejos, emergiu como o solo ideal e transbordante de possibilidades para a exploração literal dessas tendências. Mas é claro que, se no reconhecimento universal da morte do autor e abertura da obra dizia que “não era bem assim”, também agora não o será.

A arte digital não vem necessariamente juntar-se ao enterro de um nem ao escancaramento da outra, mas é também certo que se o primeiro deixa definitivamente de ser tido como garantido, a segunda tem, nesta dimensão, condições para uma abertura sem precedentes. Assim, contrariamente às práticas contemporâneas, apesar de não se fazerem do desafio das noções de “autoria, agência, criatividade, intenção, unicidade, autonomia e autenticidade” (Galanter 2003:13), as formas artísticas nesta nova Era, vão mesmo sem o querer colocá-las em questão. Diferente da arte conceptual, levanta outras problemáticas e obriga à reproblematização do já questionado, cujas respostas se dotam de uma complexa ambiguidade: o ciberutopianismo faz-se acompanhar pela tecnofobia de quem teme a desconexão do homem face ao real material e as pretensões demiúrgicas daí emergentes bem como o híbrido resultante da união entre homem e máquina que impõe a ameaça de submissão do primeiro ou, menos dramaticamente, da perda da sua relevância pela autonomização da segunda o que no âmbito da arte se traduz no questionamento da legitimidade artística, da “autenticidade” do processo criativo quando o não-humano mas humanamente criado nele toma parte, mesmo por quem exaltava a benjaminiana condenação destas ultrapassadas noções.

Ou seja não interessa já pensar a configuração do binómio autor-receptor mas também de que que modo ambos, enquanto Homem participam na tríade formada pela Máquina, resultando, diria o fundador de Electric Sheep, numa ambição tecnófila da qual o seu projecto se desloca, seria “o sonho colectivo do andróide, juntando homem e máquina na criação de uma forma de vida artificial”.

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