Falso diálogo: humano/receptor < máquina – humano/autor

A “universalidade do ciberespaço carece de qualquer centro ou directrizes” , vai-se tecendo e expandindo na virtualidade, cuja emergência ela mesma torna possível pela dimensão que se abre no real conectado pela ubiquidade das conexões que interconectam “pessoas, máquinas e informação” (Lévy apud Smith 2007:168).

Falava da equivalência substancial de tudo o que existe no virtual, porém esta igualdade na sua extensão horizontal não determina que todos os equivalentes pesem o mesmo na verticalidade hierárquica. O software vem ocupar este território potencialmente infinito porque expansivo, definindo um lugar virtual com regras no qual o cibernauta pode dar entrada, aceitando, ao fazê-lo, as directrizes pelas quais todos os seres aí se regem.

Enquanto participantes do núcleo desta estrutura que ocupa um lugar específico do vazio ciberespacial, os “pastores” das “electric sheep” são convertidos à expressão binária do seu juízo quanto à imagem que lhes chega. Assim, se a retirada de poder ao maquínico pela compreensão da importância do elemento humano vem, na verdade, revelar que a maior parte do peso deste elemento provém do programador, ao pensá-lo como correlato inexpugnável da dimensão maquínica, é o receptor individual que parece tornado impotente, assistindo ao desenvolvimento de uma obra sobre a qual tem pouca capacidade de intervenção efectiva. Assim, pode questionar-se a emergência da obra como resultado de um verdadeiro diálogo, de uma real negociação de sentido entre os participantes, a abertura e realização individualizada da obra é obstacularizada pela sua dinâmica colaborativa que contudo parece perder-se na inexistência de contacto entre estes ou entre eles e o programador, apenas entre eles e o “software” que permite a cada um participar na intervenção nunca singular da audiência na obra pela expressão binária do seu juízo estético quanto às “sheep” que emergem e cuja sobrevivência é ditada por esta impiedosa, contínua eleição.  O combate ao fechamento monológico da arte parece, acima de tudo, criar a ilusão de uma dinâmica dialógica, comunicacional, onde as conexões estabelecidas definem apenas entre a audiência e o resultado imagético uma lógica interaccional apenas reflectida no controlo da obra aquando da sua massificação.

Assim, pensando a singularidade do intérprete/receptor, a dinâmica de abertura surge apartada da “possibilidade de várias organizações confiadas à sua iniciativa” de finalização “no momento em que as frui esteticamente”(Eco 1991:39). Apenas aquando da sua integração no colectivo se pode considerar a sua capacidade de agir sobre orientação da evolução dinâmica da obra.

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