O juízo estético da maioria

A inserção do parâmetro de motivação colectivo, expresso na ajuização estética da maioria no que seria puramente arbitrário (Manovich 2002:13), permite trazer de novo à reflexão conceitos românticos que se pensariam já perfeitamente ultrapassados. O voto pelo qual se dita a morte ou sobrevivência de um genótipo que se realiza enquanto pura visualidade, é um voto assente na sensibilidade estética individual, de um juízo de gosto que depende da materialização da imagem nos corpos dispersos portadores dos olhos que observam a sua realização no ecrã, cada um deles, então, mobilizando a sua tacteabilidade para pressionar a tecla (cima ou baixo) na qual o seu juízo se vê comprimido.

Independente da ajuização individual do “Belo”, o que se realizará como a “sheep ideal” é o que a maioria decide e a sua forma de perduração não é estanque, perdura pela incorporação, pela transformação reprodutiva entre “imagens” votadas como bela (no máximo recuperamos a sua forma primeira/original nos arquivos da história da evolução). No fim, de de nada vale o “I think Kantiano” (Kittler 1997:133) se não se coadunar àquilo que “we, the majority, think”. À medida que o juízo do Belo se perde na maquinização da expressão individual, parece abrir-se, contudo, caminho ao sublime que “sempre” estivera “excluído do Belo pelo seu tamanho sem fronteiras– matemático – ou força sem limites -dinâmico” (Kittler 1997: 130).

Para Mccormack, o sublime computacional é possível se a arte electrónica se fizer da emergência. “Na computação, o emergente resulta da interacção imprevisível de vários elementos.” É precisamente a essa “interacção dinâmica” que se deve a possibilidade de imprimir neste tipo de obras um “sentido de natureza”, que não experienciável na sua totalidade é assim, simulado por uma obra também ela incompleta por definição (Mccormack 2001:12). O “sublime dinâmico da incompreensibilidade da Natureza” é então absorvido pela linguagem do código, do algoritmo, e traduzido em imagens que se podem em conjunto controlar mas às quais cada um não pode aceder.

Assim, segundo esta visão, se querendo recuperar as categorias estéticas, negando o “Belo”, ter-se-ia ainda assim de reconhecer aqui algo de sublime, um sublime ambivalente, na fronteira entre essas duas categorias de dinâmico e matemático, pela impossibilidade de apreensão total da imagem emergente que transcende a nossa compreensão imediata, mesmo que cada um tenha participado na sua emergência, pois aquilo que o código diz e nela se traduz resulta do que o colectivo de participantes humanos e máquina preparam em conjunto.

A máquina pode ser temida, mas também há um certo prazer masoquista em perder para ela o controlo dos processos que iniciamos, em testar a imprevisibilidade da sua potencial força. Sobre o espaço finito abre-se um espaço simbólico potencialmente infinito que, nascido da vontade do Homem, edificado pela sua linguagem, lhe escapa por sua própria vontade, e é nessa fuga, nessa liberdade da máquina agir sobre os dados de uma forma que nos chega como imprevisível que reside, para McCormack o valor artístico da imagem emergente neste “não-lugar”, a possibilidade de emergência do sublime computacional.

Se o fetichismo aurático parece recordado por esta proximidade distanciada da obra que se vai materializando no monitor de cada um, sem contudo se fixar no objecto e, então, escapar, prosseguindo o fluxo de emergência da sua imaterialidade informacional, a “responsividade” e “infinalizabilidade”, que a cada momento de realização dos seus possíveis aumentam a vastidão informacional de possibilidades a concretizar (genótipos diferentes a combinar) (Kac 2004:205), desfazem os receios. Do mesmo modo, é questionável o carácter sublime daquilo que emerge.

A indeterminação conceptual do próprio campo torna, de facto, difícil a reflexão crítica acerca das obras que nele emergem bem como a sua acomodação em tendências artísticas anteriores, tornando tentadora a recuperação destes termos. Sabe-se que se fala de arte e de tecnologia, mas multiplicam-se as denominações para o resultado da sua união, cada nomeação advogando a sua diferença relativamente às restantes mas não desfazendo a sensação, de quem está de fora, de se estar, senão ante mais do mesmo, perante algo não assim tão diferente. E não bastando a crise de identidade, também as práticas se diferenciam e procuram instalar-se sub-campos autónomos (com toda a legitimidade, é claro, falando-se da universalizante máquina universal) que impedem a unidade ou coerência necessárias para que já se tenha sedimentado um corpo teórico e crítico sólido.

O desafio de promover a sua formação não implica, indica Boden, colocar estas tendências artísticas dentro de fronteiras rígidas que tornem mais fácil a sua conceptualização. Pelo contrário, pensar a arte generativa/ computadorizada/ digital/ computacional/ processual/electrónica/de software/tecnológica/telemática é pensá-la precisamente nesta sua multipolaridade,  é pensá-la não dentro de fronteiras, mas como aquilo que, como o faz desde começo, as desafia, que promove a indistinção e a convergência, cada obra surgindo como um particular trilho de transmediação (Boden 2009:2). De onde o apelo da autora a que se questionem estas práticas fora da “bolha preciosa de McCormack” (id. Ibid), fora das noções esteticistas e ultrapassadas de Belo ou Sublime, fora de comparações com o que antes se fez, procurando estabelecer continuidades ou recuperações onde as não há. Têm de se colocar questões novas e não procurar aplicar até à exaustão as antigas, pois só assim se conseguirá pensar criticamente as inúmeras possibilidades deste novo campo.

Cada artista vai ter de pensar a sua arte, e integrá-la no espectro flexível e de contornos trémulos da arte digital. Se necessário de todo recorrermos a tais termos deveríamos, ao invés, como propõe Manovich falar de um Anti-Sublime, pois ao invés de, por uma obra sensorialmente apreensível, se pretender fazer chegar ao receptor o “irrepresentável”, elevá-lo a uma dimensão para lá dos “sentidos ou da razão”, pelo contrário torna-se acessível aos “sentidos humanos (…), visível e tangível” esta dinâmica de outro modo invisível de evolução pós-biológica e informacional (Manovich 2002:11). A audiência pode sentir que algo, neste processo, lhe escapa, mas tem conhecimento das regras que o regem bem como do uso que delas pode fazer aceitando-se como parte de um todo maior.

Cabe a cada um tomar a decisão quanto ao grau de relevância da sua contribuição,podendo limitar-se a testemunhar, votar, aceitando que este voto apenas se expressará na obra se confirmando a decisão da maioria democrática, mas também poderá decidir-se por uma intervenção mais verdadeiramente artística, criando ou reinterpretando e reconfigurando pela sua apropriação imagens já geradas, tornando-as primeiro suas e depois de todos, ficando então à mercê do julgamento colectivo desse conjunto que o mesmo integra a partir do qual a sua criação poderá desvanecer-se do fluxo imagético ou imiscuir-se e perdurar neste.

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