O Perigo do misticismo comunitário

Apesar do seu carácter técnico sem pretensão a qualquer tipo de transcendentalidade além da que que permite a entrada no ciberespaço, do mesmo modo que as noções de Belo e Sublime ameaçavam retornar, também a articulação de elementos no conjunto técnico parece facilmente resvalar para uma interpretação mística, como se satisfazendo a recuperação da totalidade comunitária perdida na tendência universalizante do ciberespaço ao invés do realismo tecno-orgânico que, na verdade, vem confirmar. Filtrada pelos “desejos Românticos de conexão espiritual e física entre homem, retorno à união com o natural e com o ser”, a “pós-organicidade” do conjunto técnico parece esbater-se bem como a sua inextricável tecnicidade ante a apropriação do espaço virtual como celebração do ideal neo-Romântico (Smith 2007:162). Assim, o surgimento da obra como a simulação da existência de seres orgânicos, um céu virtual onde “ovelhas”(a sua designação não é inocente) flutuam, inflamadas pela vida artificial que o Homem lhes permite desfrutar vem, precisamente, maravilhar os místicos que pensam ver no ciberespaço a janela aberta para a união transcendental das consciências na criação de uma entidade sobre-humana em controlo dos processos vitais.

Em Electric Sheep, a escrita do código traduz-se visualmente numa arte cuja única essência e substância é este mesmo código, imaterializada, a obra é a simples tradução imagética do seu genótipo. O código genético da obra emergente realiza-se enquanto fenótipo visual e, aí, sujeita-se à decisão da maioria, onde cada “cérebro humano, singular, isolado e alienado” satisfaz o seu desejo de união num “hipercortéx, partilhando da inteligência colectiva de uma mente planetária” (id.ibid.:166). Porém, o que esta releitura neoromântica da dinâmica do conjunto vem revelar é uma irreal valorização do elemento humano, como forma de realizar as pretensões demiúrgicas do mesmo Homem que sempre as canalizou para os Deuses que cria. O que os pretendentes ao divino esquecem é que, no domínio deste conjunto técnico, a máquina é um igual e também o são as “imagens” que pensa vida, cujo destino nenhum elemento sozinho dita. A visão romanticizada da qual nada se retira permite, contudo, dotar de um novo significado o reconhecimento, por parte de Smith, da falha da promessa de totalidade do ciberespaço.

Apesar de estimular a acção colectiva, a web, e as práticas que nela ganham contexto, não vem realizar necessariamente a utopia da comunidade, o que desejavam que fosse nele uma tendencial totalidade é, na verdade, uma tendência para a universalização pela “interconexão generalizada de pessoas, máquinas e informação”. O homem é um ser técnico, a tecnicidade do conjunto não pode ser ignorada por aqueles que querem dele fazer parte, não é uma entidade una, invisível e indivisível pelo qual o homem, pensando delegar o seu poder na união espiritual, se auto-proclama todo-poderoso sobre a máquina e a natureza nela simulada. A máquina não está aqui como o medium de conexão dos espíritos humanos nem tão pouco como o instrumento ao serviço do ser mutante que resultaria dessa fusão. Quem dê entrada nesta dimensão extraterrestre onde os ídolos caem e não se voltam a reeguer, reconhece, se não o medium invisibilizado e o meta-medium como seus iguais, a sua intervenção “criativa” e sabe que, embora se articule com este, ao longo do processo de individuação, não se funde. O utilizador está constantemente consciente das regras subjacentes à experiência visual e ao processo criativo no qual toma parte. Aliás, é precisamente essa consciência que lhe permite integrar-se na corrente produtiva, sendo tanto maior a sua capacidade participativa quanto maior a sua familiarização com os diferentes níveis do software. A consciência do programa e das regras é também consciência dos limites da nossa intervenção no destino da obra, abraçá-la enquanto não só um resultado mas como consistindo no próprio processo de individuação do conjunto homem máquina, que, precisamente pela frieza das regras não-ocultas e o desapego do acto do voto, não torna a ganhar um sentido de ligação “espiritual” que relevaria novamente a superioridade do humano face ao maquínico.

Em “Do Androids Dream of Electric Sheep?” as ovelhas são criadas para satisfazer o desejo do Homem de cuidar, de manter vivo e amar um ser orgânico. O desejo de retorno ao orgânico do qual sempre procurou encontrar escape. Mesmo chegando a um ponto de quase indistinção exterior de um animal real, os animais eléctricos são subvalorizados, as pessoas adquirem-nos pois não encontram melhor forma de suprir essa falha de organicidade, mas mesmo estando eles programados para a agência “autónoma”, para o afecto, para a doença e até para a morte, o Homem, sabendo o que são, vê neles sempre uma “falsidade” (como os “falsos ídolos” do terror platónico), uma aterradora pretensão do não vivo em fazer-se de vivo.

Embora a um primeiro olhar apenas o nome se mantenha, a compreensão deste estigma que motiva toda a intriga da obra de Philip K. Dick vem permitir ver algo mais no funcionamento do programa de Scott Draves. Uma vontade, ainda ingénua, de virtualização dos processos orgânicos, de autonomização da máquina, de criação de vida artificial, acompanhada, contudo, de uma recusa em deixar a máquina fazer todo o trabalho, em deixar a seu cargo a selecção – apenas o tratamento do seleccionado –, assim como uma vontade demiúrgica de poder decidir sobre a duração da vida dos seres criados.

O homem coloca-se, assim, entre a tensão gerada pelo conflito dos seus próprios desejos, e, na sua tentativa de realizá-los a todos, é ele, enquanto indivíduo que perde poder. Entre uma dinâmica interaccional que assimila o indivíduo no conjunto técnico, elidindo a sua dimensão comunicacional, e o refrear da autonomia maquínica fazendo-a orientar-se por decisões que são, ainda assim, humanas, “Electric Sheep” surge precisamente no centro tensional onde essas diferentes tendências se jogam e a obra incompleta, que resulta de todo o processo, joga-as também, a cada golpe de dados que o conjunto lança pelo qual ela vai emergindo. O descomprometimento do tipo de ligação impede a constituição da sua experiência como um mercerismo transcendentalista. Entre o reacordar sofrido dos ideais do romantismo e o seguimento das suas imediatas predecessoras,a arte generativa, não só electrónica como web-based, estabelece-se não é apenas como uma nova tendência artística mas todo um novo âmbito de possibilidades, uma nova era da arte,que se abre mais do que um mero concretizar do espírito rebelde que nasceu em meados do século passado.

Deveríamos olhá-la como um domínio inteiramente novo que faz nascer novos desejos assim como novos modos de desejar, novos mundos ou novas dimensões do mundo que nos fazem repensá-lo. – “não um mero retorno ao passado mas uma entrada num futuro”, se não pós-biológico, certamente pós-humano, onde o conjunto técnico embrenha o homem, onde Deus morre e o ciborgue se eleva. A obra em conjunto torna o conjunto na própria obra. Assim, a designar-se um autor, apontar-se-ia Scott Draves, o programador por detrás da linha programática-base que prepara o “espaço” para o tabuleiro, cria o manual de instruções. Voltando-nos para aquilo que se reivindica como a obra da dinâmica resultante do desenrolar do jogo , as “sheep”, a noção disseminada de autoria faz-nos antes questionar a responsabilidade do lance dos dados. A noção de artista navega para longe da noção de autor, este prepara a emergência, o outro faz emergir e fá-lo como esse conjunto onde o próprio autor é assimilado, passando para o primeiro a responsabilidade de tomar as instruções e desenhar o próprio tabuleiro de jogo bem como o controlo dos seus resultados.

O interesse de Electric Sheep reside precisamente na forma como assume abertamente estas dinâmicas que outras práticas tentam disfarçar como “interactividade dialógica”, por não temer ostentar a sua posição nessa fina linha entre o controlo e o descontrolo. O programador fala a linguagem da máquina e partilha com ela a sua proposta, delegando sobre ela a capacidade de a pôr em prática, porém, ao criá-la cria-a incompleta, e fá-la depender das intervenções dos que, vindos de fora, se ligam assim a ela. Também estes, contudo se sabem capazes de quase nada no singular e de depender da máquina o modo como aquilo que conseguem no plural afecta a obra. Podem também escolher uma posição mais criativa, fazendo de Electric Sheep o museu de exibição e imortalização das suas “fractal flames”. Querendo-as “sheep” contudo, sabem condenar-se a si mesmos à impotência, não só de quem tem de se resignar com as alterações que estas sofrem aquando da sua integração no rebanho, mas também de quem não tem sequer palavra na sobrevivência da já não-só-sua criação. O descontrolo de cada elemento torna-se a capacidade de controlo por parte do conjunto técnico em que estes se articulam.

A morte do autor, já sabemos, chegou bem anunciada e, apesar de tudo, pode ainda questionar-se se não continua a dar sinais de vida o cadáver ou se não terá reincarnado surgindo-nos com uma nova forma, que, contudo, recusa concordar com quem reivindica que “a criatividade existe em Leonardo, não nos seus pincéis” (Galanter 2012:6). A visão instrumental da técnica parece já ultrapassada e desajustada do seu funcionamento enquanto conjunto, existindo decisões criativas que incumbem à máquina tal como as partindo do humano, o que não implica que não haja uma mente “suporte” para esse mesmo conjunto, que lhe dá nome, mas a obra que emerge, o processo que se desenrola, absorve-o e transcende-o.

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